Esta é a história de Gabriela, e de sua mãe Cleonice, e de sua avó Rita, e de gerações de mulheres que vieram antes delas. E esta é também a história de como uma política pública ajudou a quebrar o ciclo de pobreza entre elas
Por José Rezende Jr.*“O investimento que o Estado fez em mim, vou retribuir ajudando outros jovens a transformarem suas realidades. Sou o exemplo vivo de que outra vida é possível”
Cleonice
Cleonice tem 5 anos de idade. É pequena demais para empunhar a enxada. Então, ela arranca o mato com as mãos. Cleonice ainda não sabe, mas de todo o pouco que a família planta e colhe, um terço vai para o dono da terra.
O trabalho na roça começa cedo, na linha da vida e no relógio: o dia ainda não clareou e Cleonice e seus muitos irmãos já pulam da rede e começam a correr pelo mato, para aquecer o corpo e espantar o frio. A família mora na serra de Ibiapaba, e faz muito frio, apesar de ser no Nordeste, e Cleonice e seus muitos irmãos não têm cobertor.
Hoje, talvez Cleonice e seus irmãos não tenham o que comer. Nesse caso, Rita, mãe de dez filhos, botará água para ferver, jogará na panela um pouco de sal e um tanto de um certo tipo de mato e é só com isso que a família vai enganar a fome. Talvez haja um ovo – nesse caso, Rita o cortará em pedacinhos pequenos, um para cada filho.
A vida escolar na roça termina cedo. Cleonice não conseguirá ir além da 4a série. Luís, o pai, quer que os filhos estudem; Rita, a mãe, que nunca pisou numa escola, também quer que os filhos estudem, mas quer, primeiro, que eles comam. Luiz vai à cidade com o pouco dinheiro que tem e em vez de comida traz umas folhas grandes de papel almaço, que Rita corta com esmero e divide em cadernos para os filhos, com todo o carinho do mundo. Rita pergunta a Luís: “E a comida, homem? Nossos filhos vão comer papel?”
No futuro, Cleonice será empregada doméstica em Brasília, terá uma filha chamada Gabriela, que ela será obrigada a criar sozinha, mas existirá uma política pública chamada ProUni e Gabriela chegará à universidade. O futuro será outro.
Gabriela
Gabriela, filha de Cleonice, hoje tem 26 anos, é assistente social formada pela Universidade Católica de Brasília (UCB), graças a seu esforço pessoal e à oportunidade que surgiu em forma de uma bolsa do ProUni.
Vídeorreportagem: Rafael Wergles
Mas vamos voltar dez anos no tempo: Gabriela tem 16 anos e acaba de concluir o Ensino Médio, indo já muito além de onde a mãe e a avó sonharam chegar. O pai morreu quando Gabriela não havia ainda completado 1 ano de vida, e talvez por isso – desconfia – ela tenha sido uma criança tão chorona.
Apesar de tanto choro, Gabriela teve uma infância feliz, em São Sebastião (DF), que fica a 40 minutos de ônibus do Plano Piloto. Difícil é a adolescência, desde que a menina se deu conta de que é pobre e negra.
Para complicar, Gabriela estuda no Plano Piloto, a escola é pública, mas os colegas que têm o privilégio de morar no Plano Piloto não veem com bons olhos a menina que mora longe. Gabriela é inteligente, dedicada, adora estudar, mas é pobre, negra e mora longe. Cleonice, a mãe de Gabriela, luta para dar à filha tudo o que ela própria não teve lá na roça, em Sítio Buriti, distrito de Ipueiras, serra de Ibiapaba, Ceará, Nordeste. Ela prometeu diante do túmulo do marido, que era vigilante e foi morto pelo disparo acidental de um colega de trabalho: “Vai em paz, Pedro. Eu vou cuidar direitinho da nossa filha, ela vai estudar, ela vai fazer faculdade, do jeito que a gente sonhou”.
Mas Cleonice ganha salário mínimo, e a universidade pública é feita para quem pode pagar caro por um bom cursinho, e a faculdade particular é feita para quem pode pagar caro por uma mensalidade. Foi assim por muitos e muitos anos, geração após geração. Felizmente, o Brasil mudou. Existe uma política pública chamada ProUni, e Gabriela chega à universidade, e seu futuro já é outro.
ProUni
O nome já diz tudo: Programa Universidade para Todos. ProUni. Mas ser para todos não significa ser para qualquer um. Há que se lutar muito. E Gabriela lutou muito, primeiro para concluir o Ensino Médio, depois para conquistar no Enem a pontuação suficiente para garantir uma vaga no curso que escolheu e uma bolsa integral do ProUni. Mas a luta estava longe de terminar quando ela realizou o sonho de chegar à universidade.
O ProUni tem todo um controle social muito rígido. Desistir nunca foi uma opção
A casa de Gabriela era e continua longe, 40 minutos de ônibus de São Sebastião até a rodoviária do Plano Piloto. A Universidade Católica de Brasília (UCB) era e é mais longe ainda, duas horas de ônibus da rodoviária do Plano Piloto até o campus, que fica em Taguatinga, e no meio do caminho ainda tinha o estágio, e somando tudo Gabriela gastava quase três horas para cruzar Brasília e chegar até a universidade.
ProUni é exatamente a política pública para te ensinar a pescar
A volta, que começava tarde da noite, era um pouco mais curta, menos de duas horas. O problema era chegar em casa de madrugada. O motorista gente boa parava o ônibus fora da parada oficial, para que Gabriela tivesse que caminhar menos pelas ruas escuras e desertas.
Era madrugada, mas a mãe, Cleonice, que teria que acordar bem cedo para trabalhar, esperava a filha todos os dias, em pé no portão de casa.
Deixar-se vencer pelo cansaço? Nem pensar.
“O Prouni tem todo um controle social muito rígido, eu precisava tirar uma nota mínima pra conseguir manter a bolsa, não podia reprovar por faltas, viajava horas e horas de ida e volta de casa para a faculdade, e ainda fazia estágio. E, mesmo assim, eu e outros colegas bolsistas tirávamos as melhores notas, nunca fomos reprovados. Desistir, para nós, nunca foi uma opção”, afirma Gabriela.
Chefe de gabinete da Reitoria da Universidade Católica de Brasília, Dilnei Lorenzi assina embaixo.
“Promovemos uma pesquisa para analisar o perfil e o desempenho dos alunos bolsistas do ProUni. E, para nossa grata surpresa, esse desempeno é bastante significativo. São jovens geralmente empenhados, que têm uma dedicação a mais nos seus estudos e na sua vida acadêmica como um todo. Muitos deles são os primeiros de suas famílias com diploma de Ensino Superior, com avós analfabetos e pais analfabetos funcionais. Isso transforma a família, transforma o ambiente em que eles vivem, e transforma a sociedade.”
Outra vida é possível
Desde que adquiriu maturidade e consciência de classe, Gabriela soube o que queria ser: assistente social. E desde muito cedo elegeu seu público-alvo: crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Meninos e meninas vindos de comunidades carentes, ou vítimas de dependência química, ou em conflito com a lei, ou tudo isso ao mesmo tempo.
“Sempre tive a ideia de que poderia, de alguma forma, mudar a realidade das pessoas à minha volta. O investimento que o Estado fez em mim, que me permitiu estudar, adquirir conhecimento, crescer e conquistar um bom emprego, vou retribuir ajudando outros jovens a transformarem suas realidades. Sou o exemplo vivo de que outra vida é possível.”
O primeiro desafio é a recuperação da autoestima.
“Ajudei com meu trabalho muitos adolescentes que eram considerados marginais nas comunidades em que viviam, e que quando apareceu uma oportunidade, um curso profissionalizante, um primeiro emprego como aprendiz, eles agarraram com toda a força e conseguiram construir uma nova identidade. Deixaram de enxergar a si próprios como marginais, passaram a acreditar na possibilidade de conseguir um bom emprego, de entrar na faculdade, ou quaisquer que fossem seus sonhos. Trabalhei com uma jovem de uma comunidade muito carente que conseguiu entrar na UnB”, orgulha-se.
A professora de Gabriela na curso de Serviço Social da Universidade Católica de Brasília, Karina Figueiredo é só elogios à ex-aluna.
“Gabriela é uma referência hoje para nós, que atuamos na área de defesa dos direitos da criança e do adolescente. Ela é uma militante, alguém que está lutando arduamente para que esses direitos sejam garantidos. E é, ao mesmo tempo, um exemplo, uma oportunidade de reflexão para o adolescente da periferia: ‘Se ela conseguiu, eu também posso dar um rumo diferente pra minha vida’, ela pensa.’’
O Brasil que conquistamos
Trecho de depoimento de Gabriela ao blog O Brasil que conquistamos, escrito em 2014: “Minha mãe, empregada doméstica, 'mãe solteira', como dizem, me levou até a universidade como troféu de vitória pela sua luta. Eu já cresci numa era de mais direitos e estudei em escolas públicas a vida inteira. E quando chegou no final do Ensino Médio, eu, cheia de sonhos, que adorava estudar, queria me formar, ser graduada.
Fotos: Reprodução/Arquivo Pessoal
Minha mãe só queria poder me dar tudo que ela nunca chegou nem perto de ter e sofria ao pensar em como seria para mim dali pra frente. Eu era muito nova, tinha só 16 anos, ainda nem podia trabalhar. Universidade Pública, à época, era um sonho inalcançável, que se fosse hoje, com as cotas, eu poderia chegar lá. O dia de mais alegria foi quando recebi a carta: o resultado do Enem e uma bolsa integral pelo ProUni na melhor universidade particular de Brasília. E lá fui eu ser assistente social.
Nossa fé valeu a pena. Filha de empregada também pode chegar lá. Meu plano é retribuir para a população a formação que o Estado me proporcionou. Meu plano é lutar para que as próximas gerações que crescem nas periferias do Brasil possam também ter escolhas e oportunidades.
Hoje, temos uma casa, temos até um carro, luxo pra chamada “classe C”. E queremos muito mais que isso, queremos mais direitos garantidos. Hoje, minha família no Nordeste tem o prato cheio e a cama quentinha. O mandacaru virou fartura de alimentos para aqueles que viveram gerações de pobreza e sofrimento. Hoje tem saúde, luz, água e até internet, lá na zona rural, aonde só se chegava de pau de arara. O que era sonho, virou realidade.”
O futuro não é mais como antigamente
Dona Rita tem 77 anos e ainda mora no mesmo lugar em que nasceu, Sítio Buriti, distrito de Ipueiras, serra de Ibiapaba, Ceará, Nordeste. Mas o lugar agora é outro, dado que o Brasil agora também é outro. Todos os anos ela recebe a visita da filha Cleonice e da neta Gabriela.
Cheia de orgulho, dona Rita, que nunca estudou, chama a neta de doutora. Gabriela é a primeira das muitas gerações da família a conquistar um diploma universitário. E, em breve, não será a única: todos os primos estão cursando as séries correspondentes à idade, muitos já estão no Ensino Médio, planejando suas futuras vidas acadêmicas, e alguns até chegaram à universidade, graças ao ProUni.
Durante muito tempo, o futuro de Gabriela era seguir o destino da mãe, trabalhar em casa de família, como lembra Cleonice.
“Meu pai queria que a gente estudasse. Mas como, se não tínhamos o que comer? Fui só até a 4ª série, minha mãe só sabe assinar o nome, mas minha filha chegou à universidade”, orgulha-se.
Talento e determinação nunca faltaram à filha. E quando a oportunidade surgiu, em forma de uma política pública que está ajudando a reduzir desigualdades sociais históricas, Gabriela agarrou-a com unhas e dentes.
“Minha avó cresceu com muita pobreza, minha mãe também. Represento a quebra de muitas gerações que vinham só reproduzindo a mesma história.”
Clarice
Clarice, filha de Gabriela, neta de Cleonice, bisneta de Rita, chega ao mundo em junho de 2016. Viverá num País muito diferente daquele que durante séculos ignorou seus antepassados e antepassadas.
“Minha filha terá, com mais facilidade, coisas que foram difíceis pra mim, que foram mais difíceis ainda para minha mãe e impossíveis para minha avó. Mas vou ensinar a ela que a vida é uma luta constante, que a gente não vive ainda num sonho de sociedade, mas que é por conta das utopias que a gente tem como continuar avançando. Quero ensinar para minha filha tudo sobre luta e sobre conquistas. Quero que Clarice conheça a história sofrida da nossa família, para que valorize tudo o que tem e ajude a construir um futuro ainda melhor para as gerações que virão.”
Fontes consultadas localmente
Hoje, eu espero, eu vou conseguir oportunizar para a minha filha muitas coisas que foram mais difíceis para mim
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